Querido Diário,
Numa semana em que levei um empurrão um pouco mais vigoroso e fui arrastada vertiginosamente para as últimas tendências ao nível das ferramentas virtuais, omnipotentes e omnipresentes, deu-me neste preciso momento um ataque nostálgico de adolescente e vim desabafar contigo. Também tenho direito, apesar das minhas 50 e tal primaveras (por sinal hoje a comemorarem-se!), não achas? Tornei-me professora (sabias deste sonho…) e agora parece-me que vou voltar a chatear-te com os meus dilemas… a que já estás habituado. Afinal, vou sempre ensinando aos meus alunos que a leitura e a escrita são elixires revigorantes de almas mais inquietas e com vontade de fugir da realidade, na melhor das hipóteses.
Pois é!...Estou meio baralhada, ninguém entende (isto ainda são reminiscências da adolescência, que não passaram!) e já começaram a abater-se sobre nós, com a velocidade a que as redes sociais permitem, reflexões, crónicas, comentários e outros quejandos, sobre as nossas estratégias e pedagogias, sobre o cansaço que as mesmas têm causado no seio familiar e até, imagina, observações conceituadas de que “a sua aula não foi muito produtiva”, “para o meu filho era melhor … e deve fazer para os outros…” Enfim, o preço de uma profissão multiplicadamente exposta que não inibe “expers” de fazerem saber todo o seu conhecimento e alternativas de sucesso, especialmente para cada um dos seus educandos.
Desculpa… mas vou pormenorizar. Foi decretado o fecho das escolas e logo trovejaram recados muito assertivos do Ministério de que “não estamos de férias”, “continuamos com horário escolar”, etc, etc, para que a respeitosa e respeitável comunidade educativa (e não só!) ousasse imputar-nos mais uma oportunidade (invejável e nada merecida!) de ter uma pausa letiva mais prolongada. Seguiram-se ofertas de plataformas temporariamente gratuitas para os meninos continuarem a aprender, mails e mais mails com tutoriais de milhentas outras com potencialidades inovadoras para os professores explorarem e aplicarem com os seus alunos… Numa tentativa zelosa de continuar a cumprir com as nossas obrigações e ir ao encontro das necessidades das disciplinas fulcrais para o sucesso dos alunos, dos exames que continuam a estar no horizonte, da eventualidade de termos de continuar a ensinar online e a avaliar, lá mergulhámos de cabeça nessa exploração, à procura de recursos atrativos e estratégias produtivas. Obviamente, cada professor escolheu o que melhor se adaptou à sua pedagogia e a diversidade surgiu! Seguiram- se dias intensos e esgotantes, com várias horas extraordinárias em comunhão imposta com todos os ecrãs disponíveis (partilhados e “roubados” à família que continuamos a ter e que, por acaso, também inclui estudantes e progenitores já com alguma idade a quem temos o dever de dar proteção!), com mensagens e telefonemas de sobra de imensos “filhos” que ganhei e não me largam, sem hora nem descanso, correções, reuniões, Internet lenta… E não faltaram dúvidas de alunos só porque sim, porque não lhes apetece ler as orientações ou estão a dormir e “chegam atrasados” a tudo, plataformas em que não conseguem entrar, trabalhos copiados (ou então solidariamente partilhados!), tarefas perfeitas de alunos que, de repente, passaram a responder a tudo corretamente e a escrever irrepreensivelmente. Confesso que não estava à espera destes milagres repentinos como professora já com uma longa carreira! À minha volta, num rodopio alucinante, testemunhos reconfortantes de “voltar às tarefas que não se faziam há muito tempo” e eu a terminar os dias esgotada… Não é justo! (outro resquício da adolescência!) Mas tudo em prol da urgência atual, das circunstâncias incontornáveis e do reconhecimento do poder da tecnologia!
Agora, vamos à melhor parte… Em momento de balanço da primeira semana, começam a chegar, para pintalgar o nosso fim de semana, as condoídas reclamações dos Encarregados de Educação sobre o excesso de trabalhos e as dificuldades familiares, proliferam os apelos à nossa boa gestão dos recursos e ao nosso bom senso, os comentários que quase me fazem sentir culpada e destruidora da harmonia do lar… É normal! Nos últimos tempos, é comum esta aparente desorientação, este caminhar em sentidos sinuosos, esta avaliação exacerbada e descontextualizada do exterior…
Vou respirar, vou entranhar o ar puro da Natureza, indiferente às estranhas cogitações humanas, vou absorver a energia de um Sol tremeluzente, vou tentar vislumbrar o horizonte luminoso por entre as tufadas nuvens, vou exalar este odor primaveril, vou... Sobreviver!
Adeus! Acho que vou precisar de ti brevemente!
Heroína Desconhecida