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"Diário" , da aluna Ana Maia

14 de março de 2020, sábado, 21:38


 


Hoje, foi o primeiro dia de quarentena. Não fiz grande coisa, devo admitir. Toda a gente anda preocupada com a forma como as coisas vão ser agora e eu ainda estou a processar. Sempre tive dificuldade em lidar com despedidas de qualquer tipo, por isso eu prefiro fingir que está tudo bem até à hora em que não está. 


Queria poder dizer que não preciso de me preocupar porque, no fim da quarentena, vamos estar todos juntos outra vez, mas não é bem assim. As coisas vão mudar, eu tenho a certeza disso, mas saber que vamos para casa de surpresa e nunca vamos fazer as coisas que sempre quisemos fazer com uma amiga que vai embora deixa-nos a todos um bocado hesitantes. E sei que não posso fazer nada agora, mas quero acreditar que algum dia nós vamos voltar a encontrar-nos.


 


18 de março de 2020, quarta-feira, 17:40


 


É oficial, o mundo perdeu a cabeça! Sei que eu mesma estava a fazer um drama antes, mas eu ultrapassei isso depressa. Ou seja, falei com alguém que me ajudou a olhar para o cenário de outra maneira que não me fizesse entrar em pânico, como tinha acontecido. Mas as pessoas estão obviamente a dar em loucas. E como se isso não fosse mau o suficiente, na minha casa, que até agora tinha tido paz, a minha mãe entrou em parafuso sobre o vírus e está a fazer exatamente o mesmo que as outras pessoas. 


Hoje, ela disse que ia buscar frango e batatas ao supermercado para o almoço e voltou com dois sacos de compras, dos grandes, cheios, a transbordar de massa, enlatados, leite, e até papel higiénico. E, quando eu olhei para ela a entrar em casa com aquilo tudo atrás, pensei que se tinha esquecido que o meu pai trabalha na Renova e que, por isso, temos um stock gigantesco de papel de todos os tipos na cave. Ela, obviamente, começou a barafustar por todos os cantos, enquanto arrumava as latas de atum e os pacotes de massa nos armários, sobre como ela não estava a ser dramática e como nós precisávamos de provisões porque isto eram tempos difíceis. Eu o meu irmão, que obviamente a estávamos a levar a sério, gozámos dizendo que quando acabasse a comida comiam-se os cães primeiro. Felizmente, ela estava com um humor minimamente bom e não disse nada sobre a brincadeira. 


O dia passou, eu tinha trabalhos da escola para fazer e enviar, por isso fui-me embora. Honestamente, acho que mandei mais emails esta semana do que na minha vida inteira. Mas ao menos posso fazer os trabalhos como quiser sem ser incomodada, com música aos altos berros no meu quarto, se bem me apetecer. 


Mas eu continuava a pensar sobre o que a minha mãe e as pessoas em geral estavam a fazer. Até havia pessoas que lutavam umas com as outras nas lojas porque queriam levar as coisas que outros tinham. E, honestamente, para que é que precisam de tanto papel higiénico? Eu acho que se esqueceram da existência dos bidés. O que é um bocado idiota, tendo em conta que eles praticamente só existem na Europa. Mas enfim, acho que toda a reação quanto ao vírus estava a ser um grande exagero, coisas feitas por pessoas em pânico porque provavelmente não se informaram sobre o vírus e acham que agora é o fim do mundo. Como eu, antes de pedir que me explicassem melhor o que estava a passar-se.  


Eu concordo que se deve ter cuidado, mas há de haver um sítio onde se põe uma linha a dividir ser cuidadoso de estar em completa histeria. Eu costumo dizer que se pode fazer tudo, desde que não se prejudique ou magoe ninguém. Só acho que as pessoas deviam olhar para a nossa situação como se estivessem no espaço e vissem que o nosso mundo é tão pequeno e nós estamos a fazer um escândalo tão grande quanto ao que se passa, sem saber dos milhões de problemas lá fora, que são muito mais prejudiciais do que o vírus. Nós temos de ser inteligentes e cuidadosos, sem ser egoístas, histéricos ou ignorantes.


 


Ana

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