Torres Novas, 20 de março de 2020
Isto é tão estranho, este sentimento que tenho vivenciado nos últimos dias! Sinto-me diferente, sinto que vou ter uma vida diferente e mais desafiante nos próximos tempos. Que estranho que tudo me parece nestes dias! Querer abraçar e não poder, estar próxima de quem mais amo e não poder beijar, partilhar momentos e não conseguir fazê-lo. É um desafio novo para mim, aliás, este é agora o desafio da humanidade.
Apetece-me dizer que chegou o momento mais importante das nossas vidas, aquele acontecimento de que ninguém estava à espera, que nenhum de nós fazia ideia que este maldito vírus nos fosse atacar agora, de um momento para o outro. Não tinha noção de que fosse assim tão difícil passar por isto, que fosse tão complicado ficar fechada durante vinte e quatro horas no mesmo sítio, durante semanas. Talvez daqui em diante seja meses mesmo. Mas vou ter de aguentar, eu e todos, e fazer o possível para evitar o pior, nem que seja só ficar em casa. Se isso ajuda, vou fazê-lo.
Passou só uma semana desde o início desta tragédia em que me disseram que tinha de ficar em casa e já me sinto uma pessoa diferente com pensamentos diferentes. Penso muito no dia de amanhã, no que pode acontecer às inúmeras pessoas, penso na minha família, relembro que isto pode acontecer a qualquer um. Não tenho aquele pensamento de que isto só acontece aos outros, penso exatamente o contrário. Digo para mim que é urgente a paz neste momento, este é o momento em que paramos e sabemos que somos todos iguais, a altura em que percebemos que não é preciso dar as mãos para estarmos unidos. Lembro-me de que não é por acaso que toda uma vida parou, foi para que todos nós, juntos, sem exceção, pudéssemos lutar por um final feliz.
Durante os últimos dias, dei mais valor à vida, percebo que não vale a pena sermos egoístas uns com os outros porque, de facto, estamos todos em risco e quando olho para a televisão e oiço coisas que parecem ser de um filme, fico assustada e com medo, medo do que vem daqui para a frente. Mas relaxo e penso que tudo o que decide aparecer de mau na nossa vida traz sempre algo de bom e que teve um antecedente para acontecer. E esse pensamento faz-me olhar para as coisas de maneira diferente e melhor, perceber que realmente aqueles que amamos voltarão a ter o nosso abraço e assim entender que o melhor da vida está nas pequenas grandes coisas, coisas que talvez não fazíamos antes. Foi preciso isto acontecer para darmos valor ao que nem sempre damos. Ficar este período em casa vai-me fazer analisar e ponderar o que nem sempre ponderamos.
Precisei de parar para pensar, também eu não estava a compreender bem o que era isto. Já refleti e cheguei à conclusão de que isto não vai passar tão rápido como achamos e que vai demorar mais tempo a ultrapassar do que se imagina. Desta vez, somos nós contra o “bicho” que tudo quer acabar e, por isso, na minha consciência, vou agir da maneira correta.
Desistir não é, nem nunca foi, palavra que nos atingisse. Acredito que, se quisermos, vai ficar tudo bem e que em vez de ficarmos presos nas nossas casas, poderemos sair livremente. E os cafés, lojas, centros comerciais, as ruas, as cidades em si voltarão a encher-se de vida.
Agora, o que importa é vencer isto da melhor forma possível. Ainda agora começou…
Sofia Nobre